Os problemas de comportamento são dos motivos mais frequentes da consulta de Pedopsiquiatria. Os episódios curtos de “explosões” verbais e comportamentais em resposta à frustração, zanga e raiva são frequentemente apelidados de birras. Nas crianças mais pequenas, as birras podem surgir quando estão mais cansadas, sonolentas, adoentadas ou com fome e são mais frequentes nas crianças entre os 18 e os 36 meses. À medida que as crianças vão crescendo, o desenvolvimento emocional permite-lhes desenvolver estratégias para tolerar e gerir a frustração e para exprimir o que as desagrada de um modo adequado.
Embora seja normal e até saudável existirem birras, se estas forem muito frequentes ou intensas podem ser sintomas de dificuldades emocionais ou de patologia psiquiátrica (depressão, ansiedade, perturbação de hiperatividade e défice de atenção, perturbação desafiante de oposição, autismo, perturbação da regulação do processamento sensorial, etc). Os seguintes sinais de alarme devem levar os pais a procurarem ajuda médica para esclarecimento diagnóstico e desenvolver estratégias para a ajudar a criança e a família:
- Birras incluem comportamentos que colocam a criança ou outras pessoas em risco
- Se a criança se magoa a si própria de propósito
- A criança não consegue tranquilizar-se sozinha
- Interferem com o bem-estar da criança na escola ou nas relações com os amigos
- São muito frequentes ou muito prolongadas (mais do que 25 minutos)
Como devem os pais reagir perante uma birra?
- Mantenha-se calmo. Os pais devem exemplificar como se deve lidar com uma situação frustrante.
- Encoraje a criança a utilizar as palavras para exprimir as suas necessidades e os seus sentimentos. Nos mais pequenos, quando ainda estão a aprender a identificar as emoções, é importante que os pais lhes expliquem a emoção que está na origem daquele com comportamento.
- Ajude-a a resolver o problema.
- Distraia a criança do que a está a perturbar.
- Clarifique de modo calmo que comportamentos têm que parar (comportamentos agressivos) e quais as consequências de manter ou parar esses comportamentos
- Não responda às birras com agressividade física. Bater ou qualquer outro comportamento agressivo é um mau exemplo de como lidar com a frustração.
Dicas para diminuir os comportamentos opositivos
As birras e a desobediência são normais nas crianças saudáveis e atingem o pico durante os “terríveis dois anos”, pelo desenvolvimento da autonomia e procura da criança em afirmar-se e mostrar que é um ser independente e com vontade e desejos próprios.
Há diferentes estilos parentais. A evidência científica mostra que os filhos de pais demasiado autoritários ou de pais demasiados permissivos apresentam maior prevalência de perturbações emocionais e comportamentais. A parentalidade positiva (um meio termo entre o autoritário e o permissivo) é aquela que melhor responde aos direitos e necessidades emocionais das crianças. Os pais deverão ser capazes de estabelecer regras e limites e explicarem a razão dessas regras serem importantes. Para o ajudar a criar um ambiente mais tranquilo lá em casa tenha atenção às nossas sugestões:
- Dedique atenção individualizada ao seu filho diariamente. Brinque com o seu filho, conforme ele quiser, com respeito pelos gostos e opiniões da criança e sem lhe impor as suas regras ou críticas.
- Enfatize os bons comportamentos e os esforços do seu filho.
- Reduza o número de regras e concentre-se nas mais importantes. É importante que as regras que estabelece sejam realistas e apropriadas para a idade do seu filho.
- Dê ordens claras, específicas e positivas. Explique detalhadamente os comportamentos que gostaria de ver no seu filho. Evite ordens vagas, negativas e em tom de crítica, como: “Não te portes mal” ou “Senta-te quieto ao menos uma vez na vida”.
- Dê-lhe tempo, se possível. As crianças têm dificuldade em terminar repentinamente uma atividade interessante. Avise antecipadamente para ajudar o seu filho a fazer as transições. Por exemplo: “Mais cinco minutos e tens que vir para a mesa”.
- Elogie o cumprimento das ordens. Em geral, os pais dão atenção às crianças quando estas desobedecem e ignoram quando elas cumprem. Inverta a situação, para que o seu filho sinta que é bom cumprir as orientações.
- Estabeleça programas de reforço positivo. De cada vez que a criança cumpra o que lhe é proposto tem direito a um autocolante ou ponto. Os pontos e autocolantes são colecionados e trocados por itens de uma lista de recompensas simbólicas, que não devem ser guloseimas nem dinheiro e devem ser explicadas com detalhe previamente. Por exemplo: de cada vez que fizer a cama, ganha um autocolante e no final de 3 autocolantes tem direito a escolher que filme vão ver, por exemplo.
- Se o comportamento sair fora do controlo, estabeleça um “tempo de pausa” como consequência. Afaste a criança da atenção dos adultos durante um breve período (entre 3 a 5 minutos, no máximo) para lhe dar a oportunidade para recuperar a calma, refletir sobre o seu comportamento e ponderar outras soluções. É uma abordagem de gestão da raiva e frustração que lhe será útil ao longo de toda a vida. Explique claramente e de modo calmo quais os comportamentos que levam ao “tempo de pausa”, que devem ser comportamentos graves (agressões, comportamentos destrutivos) e não pequenas desobediências.
- Prepare-se para ser testado. Tente ignorar os protestos menores, como resmungar enquanto cumpre a tarefa.
- Dê o exemplo. As crianças aprendem mais com o que vêm do que com o que ouvem. “Não olhes para o que eu faço, olha antes para o que eu digo” raramente ou mesmo nunca resulta. Não se esqueça que dar o exemplo do comportamento desejado é a estratégia de ensino mais eficaz.
- Aceite o temperamento do seu filho. O nível de atividade, disposição, grau de intensidade emocional, adaptabilidade, impulsividade e persistência podem variar muito dentro de um espetro considerado normal.
Se tiver dúvidas ou considere que o comportamento do seu filho interfere com o bem-estar emocional dele ou da família, não hesite em entrar em contacto.