Infância

Birras e problemas de comportamento

Dra. Susana Silva Santos | 22 Jan 2022 | 4 mins leitura

Menino a fazer birra no sofa
As birras são comportamentos normais em determinadas fases do desenvolvimento.

Os problemas de comportamento são dos motivos mais frequentes da consulta de Pedopsiquiatria. Os episódios curtos de “explosões” verbais e comportamentais em resposta à frustração, zanga e raiva são frequentemente apelidados de birras. Nas crianças mais pequenas, as birras podem surgir quando estão mais cansadas, sonolentas, adoentadas ou com fome e são mais frequentes nas crianças entre os 18 e os 36 meses. À medida que as crianças vão crescendo, o desenvolvimento emocional permite-lhes desenvolver estratégias para tolerar e gerir a frustração e para exprimir o que as desagrada de um modo adequado.

Embora seja normal e até saudável existirem birras, se estas forem muito frequentes ou intensas podem ser sintomas de dificuldades emocionais ou de patologia psiquiátrica (depressão, ansiedade, perturbação de hiperatividade e défice de atenção, perturbação desafiante de oposição, autismo, perturbação da regulação do processamento sensorial, etc). Os seguintes sinais de alarme devem levar os pais a procurarem ajuda médica para esclarecimento diagnóstico e desenvolver estratégias para a ajudar a criança e a família:

  • Birras incluem comportamentos que colocam a criança ou outras pessoas em risco
  • Se a criança se magoa a si própria de propósito
  • A criança não consegue tranquilizar-se sozinha 
  • Interferem com o bem-estar da criança na escola ou nas relações com os amigos
  • São muito frequentes ou muito prolongadas (mais do que 25 minutos)
 

Como devem os pais reagir perante uma birra?

Mãe explica emoções ao filho que zangado faz birra
Mantenha-se calmo. Dê o exemplo ao seu filho.
  • Mantenha-se calmo. Os pais devem exemplificar como se deve lidar com uma situação frustrante.
  • Encoraje a criança a utilizar as palavras para exprimir as suas necessidades e os seus sentimentos. Nos mais pequenos, quando ainda estão a aprender a identificar as emoções, é importante que os pais lhes expliquem a emoção que está na origem daquele com comportamento.
  • Ajude-a a resolver o problema.  
  • Distraia a criança do que a está a perturbar.
  • Clarifique de modo calmo que comportamentos têm que parar (comportamentos agressivos) e quais as consequências de manter ou parar esses comportamentos
  • Não responda às birras com agressividade física. Bater ou qualquer outro comportamento agressivo é um mau exemplo de como lidar com a frustração.

 

Dicas para diminuir os comportamentos opositivos

Mãe e filho brincam no chão
Brinque com o seu filho todos os dias. Siga as pistas da criança.

As birras e a desobediência são normais nas crianças saudáveis e atingem o pico durante os “terríveis dois anos”, pelo desenvolvimento da autonomia e procura da criança em afirmar-se e mostrar que é um ser independente e com vontade e desejos próprios.

Há diferentes estilos parentais. A evidência científica mostra que os filhos de pais demasiado autoritários ou de pais demasiados permissivos apresentam maior prevalência de perturbações emocionais e comportamentais. A parentalidade positiva (um meio termo entre o autoritário e o permissivo) é aquela que melhor responde aos direitos e necessidades emocionais das crianças. Os pais deverão ser capazes de estabelecer regras e limites e explicarem a razão dessas regras serem importantes. Para o ajudar a criar um ambiente mais tranquilo lá em casa tenha atenção às nossas sugestões:

  • Dedique atenção individualizada ao seu filho diariamente. Brinque com o seu filho, conforme ele quiser, com respeito pelos gostos e opiniões da criança e sem lhe impor as suas regras ou críticas. 
  • Enfatize os bons comportamentos e os esforços do seu filho.
  • Reduza o número de regras e concentre-se nas mais importantes. É importante que as regras que estabelece sejam realistas e apropriadas para a idade do seu filho.
  • ordens claras, específicas e positivas. Explique detalhadamente os comportamentos que gostaria de ver no seu filho. Evite ordens vagas, negativas e em tom de crítica, como: “Não te portes mal” ou “Senta-te quieto ao menos uma vez na vida”.
  • Dê-lhe tempo, se possível. As crianças têm dificuldade em terminar repentinamente uma atividade interessante. Avise antecipadamente para ajudar o seu filho a fazer as transições. Por exemplo: “Mais cinco minutos e tens que vir para a mesa”.
  • Elogie o cumprimento das ordens. Em geral, os pais dão atenção às crianças quando estas desobedecem e ignoram quando elas cumprem. Inverta a situação, para que o seu filho sinta que é bom cumprir as orientações.
  • Estabeleça programas de reforço positivo. De cada vez que a criança cumpra o que lhe é proposto tem direito a um autocolante ou ponto. Os pontos e autocolantes são colecionados e trocados por itens de uma lista de recompensas simbólicas, que não devem ser guloseimas nem dinheiro e devem ser explicadas com detalhe previamente. Por exemplo: de cada vez que fizer a cama, ganha um autocolante e no final de 3 autocolantes tem direito a escolher que filme vão ver, por exemplo. 
  • Se o comportamento sair fora do controlo, estabeleça um “tempo de pausa” como consequência. Afaste a criança da atenção dos adultos durante um breve período (entre 3 a 5 minutos, no máximo) para lhe dar a oportunidade para recuperar a calma, refletir sobre o seu comportamento e ponderar outras soluções. É uma abordagem de gestão da raiva e frustração que lhe será útil ao longo de toda a vida. Explique claramente e de modo calmo quais os comportamentos que levam ao “tempo de pausa”, que devem ser comportamentos graves (agressões, comportamentos destrutivos) e não pequenas desobediências.
  • Prepare-se para ser testado. Tente ignorar os protestos menores, como resmungar enquanto cumpre a tarefa.
  • Dê o exemplo. As crianças aprendem mais com o que vêm do que com o que ouvem. “Não olhes para o que eu faço, olha antes para o que eu digo” raramente ou mesmo nunca resulta. Não se esqueça que dar o exemplo do comportamento desejado é a estratégia de ensino mais eficaz.  
  • Aceite o temperamento do seu filho. O nível de atividade, disposição, grau de intensidade emocional, adaptabilidade, impulsividade e persistência podem variar muito dentro de um espetro considerado normal.

 

Se tiver dúvidas ou considere que o comportamento do seu filho interfere com o bem-estar emocional dele ou da família, não hesite em entrar em contacto.


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